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ESPECULAÇÕES sobre o que nos atrai no cinema-puzzle

tive o prazer de ver DOIS filmes nos últimos tempos que me deixaram a pensar no porquê da obcessão do espectador pelo puzzle, pelo plot twist e pela “história baseada em factos verídicos”, no cinema. e, sem querer entrar em lugares comuns, é claro QUE HÁ paralelos com AS artes NUM SENTIDO MAIS LATO a partir de – mais ou menos – Da segunda metade do século xx.

mas o cinema veio com a anunciação de ser uma arte sem aura, se pensarmos na inauguração do pensamento sobre ele, nestes termos, por walter benjamin. isto transforma-o numa máquina de imagens políticas, sendo o seu produto mais ou menos reconhecível. é, assim, uma máquina parideira de lógicas – sejam elas mais tecnocratas, ou as tão badaladas “dream logics”.

alguns realizadores, e os seus filmes, parecem, no entanto, ir mais longe. e isso é claro, daqueles que se apoiam em ideias como a da fotogenia ou de uma poesia essencialista qualquer – digo qualquer, porque há muitas. não pretendo com esta palavra desvalorizá-la, até porque este blog tem sido porta-ESTANDARTE de muitos destes artistas.

mais interessante, e, digo mesmo, corajoso, é aquele que decide enfrentar o touro pelos cornos. digo, o realizador que pega no puzzle, e, ao chocalhá-lo, deSSE MOVIMENTO pretende construir a sua própria arte.

os DOIS filmes abaixo fazem-no, de um modo muito diferente entre si, mas com esta característica comum. DEIXO UM CURTO PENSAMENTO, NESTE FIO CONDUTOR, PARA CADA UM DELES:

l’hypothèse du tableau volé, DE RAÚL RUIZ

RAÚL RUIZ, NUM DOS SEUS PRIMEIROS FILMES A TER A ATENÇÃO DEVIDA, EM ESTILO DE DIVERTIMENTO INTELECTUAL, BRINDA-NOS COM UM LABIRINTO – EM TOM SEMELHANTE AO LABIRINTO DE ALAIN RESNAIS EM MARIENBAD, SENDO ESSE UM LABIRINTO PSICOLÓGICO. NESTA ESPÉCIE DE PESCADINHA DE RABO NA BOCA HERMENÊUTICA, O REALIZADOR DESAFIA-NOS A ALAPARMO-NOS NA DÚVIDA E NO GESTO INTERPRETATIVO DE DESVENDAMENTO. NÃO PARA FAZER UMA PONTE COM A REALIDADE – SEJA LÁ O QUE ISSO FOR NO FILME – MAS PARA MERGULHARMOS PROFUNDAMENTE NO OBJETO ARTÍSTICO, E EXPERIENCIÁ-LO POR DENTRO. ENTÃO REVELA-NOS COM O CINEMA UM LABIRINTO, REPITO, MAS UM LABIRINTO SEM SAÍDA – E ÀS VEZES TAMBÉM SEM APARENTE ENTRADA – NO QUAL O ESPECTADOR SÓ SOBREVIVE ENCARNANDO O FAMINTO MINOTAURO.

chronovisor, DE JACK AUEN E KEVIN WALKER

SUSPENSÃO DO TEMPO E DA REALIDADE É UMA DAS GRANDES PARTICULARIDADES DA ARTE CINEMATOGRÁFICA. O QUE ACONTECE, ALAS, SE O CONSENTIMENTO ESPECTADOR-CINEASTA SOBRE A EXPECTATIVA DESSA SUSPENSÃO FOR QUEBRADA PELA TAL REALIDADE, OU SEJA, O THROUGH THE LOOKING GLASS DO FILME? CHRONOVISOR É UM FILME DE SUSPENSE – NÃO FORA TÊ-LO VISTO NO MOTELX ESTE ANO – E DAQUELES COM UM FINAL INESPERADAMENTE REVELADOR. DE UM MODO MUITO ORIGINAL SEGUE OS BEATS DE UM FILME DE MISTÉRIO, E TERMINA COM UMA EPIFANIA SOBRE SI PRÓPRIO. NÃO OBSTANTE, QUANDO CHEGO A CASA E ME PONHO A PESQUISAR SOBRE O ASSUNTO EM QUE O FILME CONSTRÓI AS SUAS IDEIAS, QUANDO ESBARRO DE CARAS COM ESSE TAL ESPELHO. AFINAL, DESCONFIA-SE MESMO QUE O TAL CHRONOVISOR TENHA EXISTIDO.

E O MAIS ENGRAÇADO EM COLAR A IDEIA DESTE APARELHO DA MEMÓRIA AO CINEMA – ATRAVÉS DE SIGNOS QUE VÃO BEBER INFLUÊNCIA À LITERATURA, E TÊM A FORMA MIMÉTICA DO PRÓPRIO GESTO DE LER, INVESTIGAR E ESTUDAR – É QUE CURIOSAMENTE SE FUNDEM TÃO BEM, QUE NA CONFIRMAÇÃO DO SUPOSTO OBJETO PRECEDER AO ASSUNTO DO FILME, ELE PRÓPRIO GANHA A GRAVIDADE DO CINEMA. A TAL FOTOGENIA, QUE SE MATERIALIZOU NA MÁQUINA QUE SURGE NUMA CABANA EM SAGRES, E DEPOIS NO POTENCIAL REVELADOR DESSA MESMA MÁQUINA, ATRAVÉS DA MEMÓRIA.

UM JOGO DE INVESTIGAÇÃO, CISMA, OBSESSÃO, MEMÓRIA E REVELAÇÃO CRISTALIZADO, E ENSIMESMADO A PONTO DE SE TORNAR CLARÍSSIMO O ESPAÇO A SER OCUPADO, MESMO QUE POR VEZES ESSE ESPAÇO PAREÇA UM MERO ESPELHO, ENTRE ARTISTAS E O MUNDO, E, ACIMA DE TUDO, ENTRE ESPECTADORES E O MUNDO.

Manuel Oliveira