ERA UMA VEZ O GRÃO

OU COMO O CINEMA NOS POSSUÍA E CONTINUA A POSSUIR
FECHAR OS OLHOS, DE VICTOR ERICE

A MEMÓRIA, A MORTE E A ETERNIDADE. ESTE TRIÂNGULO ACOMPANHA A HISTÓRIA DA ARTE, E EM PARTICULAR A HISTÓRIA DO CINEMA E DA IMAGEM EM MOVIMENTO, NA MEDIDA EM QUE UNE TRÊS PONTOS ESSENCIAIS À EXPERIÊNCIA HUMANA, E QUE CUJA EXISTÊNCIA EM SIMULTÂNEO PAREÇA POR VEZES SER, MESMO QUE OS PONTOS SEJAM INTERDEPENDENTES, PARADOXAL. O MAIS INTERESSANTE EM TUDO ISTO É VER NA HISTÓRIA DO MEIO O QUE HÁ EM COMUM ÀS VÁRIAS ENTIDADES QUE PEGARAM NAS IMAGENS EM MOVIMENTO NAS EXPRESSÕES MAIS DIVERSAS DOS SEUS MILIEUX. FALAVA COM ALGUNS COLEGAS DO CINECLUBE DE POMBAL SOBRE A DIMENSÃO ABISMAL DO ÚLTIMO FILME DE VICTOR ERICE, FECHAR OS OLHOS, QUANDO NESSA MESMA NOITE DOU POR MIM COM UM ATAQUE DE CASPA EXISTENCIAL SOBRE A IDEIA CENTRAL DO FILME, QUE É A DA MEMÓRIA, E POR ALGUM MOTIVO O MEU CÉREBRO FEZ UMA DAS LIGAÇÕES (PARECE-ME A MIM…) MAIS PARVAS DE QUE ME LEMBRO DE ALGUMA VEZ TER FEITO: E PENSAR ISTO DA MEMÓRIA COMPARANDO CUADECUC, VAMPIR, DE PORTABELLA, E O I SAW THE TV GLOW, DE JANE SCHOENBRUN. EU SEI, NADA DISTO PODIA SER MENOS INTERESSANTE. MAS AQUI VÃO ALGUNS PENSAMENTOS SOBRE OS DOIS FILMES…

I SAW THE TV GLOW, DE JANE SCHOENBRUN

1: A MORTE

AMBOS FILMES DE CORPOS MORTOS, E PORTANTO DESGRAÇADOS E DEPRIVADOS DE SENTIDO, MAS COM DIFERENÇAS NA SUA RELAÇÃO COM A SUA SUPOSTA VIDA PASSADA:

CHRISTOPHER LEE, UM CADÁVER QUE SABE QUE JÁ É IMAGEM, FOGE DO ENQUADRAMENTO DE PORTABELLA PORQUE SABE QUE NÃO CONSEGUE ESTAR NA SUA PLENITUDE ALI, MAS SIM EM FRENTE DE UMA OUTRA CÂMARA. NESTA PERSEGUE-LHE O GRÃO, UM RASTO QUÍMICO, QUE O LEMBRA QUE O CINEMA TAMBÉM É – E AINDA BEM QUE O É – MATÉRIA EM DECOMPOSIÇÃO. O ATOR FOGE DESTA CÂMARA COMO A PERSONAGEM FOGE DO SOL.

OWEN E MADDY SÃO REFLEXOS DE SI MESMOS, MESMO QUE NUNCA TENHAM EXISTIDO ANTES. OS SEUS CORPOS-RECETÁCULO FORAM JÁ CONSUMIDOS PELA PRÓPRIA IMAGEM, E NELES EXISTEM SOMENTE RESQUÍCIOS DO QUE A TELEVISÃO JÁ CONSUMIU. A PROMESSA DE UM ESPAÇO PARA EXISTIREM ACABOU POR OS ENGOLIR, E PARADOXALMENTE MATÁ-LOS ANTES DE TEREM NASCIDO. ELES NUNCA TIVERAM A OPORTUNIDADE DE SER ATORES NAS SUAS PRÓPRIAS VIDAS, MESMO QUE O GUIÃO JÁ TIVESSE SIDO ESCRITO.

2: A ETERNIDADE

EM I SAW THE TV GLOW A IMAGEM – do filme e no filme – É LIQUEFEITA EM PÍXEIS. A ESTÁTICA DA TELEVISÃO É O EQUIVALENTE DIGITAL AO GRÃO DO FILME: O QUE NA PELÍCULA SE DECOMPUNHA, AQUI EXISTE NUM LOOP INFINITO QUE CALHA EM REPETIR OS ERROS DO PROCESSO DE CAPTURA DE IMAGENS. O QUE É QUE DAQUI SOBROU?

O FILME DE PORTABELLA É CINEMA COMO CADÁVER FOTOSSENSÍVEL – ALIMENTA-SE DA REALIDADE PARA SOBREVIVER NA TELA. MAIS: ALIMENTA-SE NA BUSCA DA REALIDADE DA QUAL SUGA SOMBRAs e luz, E depois REGURGITA GRÃO, ARRANHÕES E FALHAS DE EMULSÃO. mas NO QUE É QUE TUDO ISTO RESULTA?

CUADECUC, VAMPIR, DE PERE PORTABELLA

3: A MEMÓRIA

FANTASMAS, VULTOS, MORTOS-VIVOS. FANTASMAS DA HISTÓRIA, FANTASMAS DE IDENTIDADE. FANTASMAS QUE ERAM DE IDENTIDADE, E FANTASMAS QUE VÃO SER DA HISTÓRIA.

o cinema são imagens radioativas – umas em rosa, outras em preto e branco. mas todas são, na sua essência, parasitas e vampirescas porque nos consomem a vida e transforma-nos. acima de tudo, a sua tentação é a tentação de perceber e congelar a memória.

nada disto fez muito sentido tendo em conta os exemplos dado. ou talvez tenha feito, e se calhar podia ter feito mais AINDA com outros exemplos. mais uma desculpa para continuar a ver cinema.

mas nunca esquecendo: cuidado com o cão? não… — cuidado com o cinema.

Manuel Oliveira