DESBANALIDADE DO BEM

SOBRE AURORA, DE CRISTI PUIU

A CRISE DA “DESBANALIDADE DO BEM” ESTÁ NO CENTRO DO CINEMA E ARTE ROMENA CONTEMPORÂNEA – FUGINDO DAQUELES COMO PODEMOS TENDENCIALMENTE ASSOCIAR A AURORA (2010), COMO MICHAEL HANEKE OU ALAN CLARKE POR EXEMPLO, E DA SUA INSISTÊNCIA SOBRE A IDEIA DE BANALIDADE DO MAL – SE A ELA NOS PROPUSERMOS FAZER UMA INEVITAVELMENTE ORIENTALISTA E OCIDENTO-CÊNTRICA PSICANÁLISE ESPECTATORIAL.

NO CASO DE AURORA, FOI O PRÓPRIO REALIZADOR QUE SUGERIU HAVER UMA CORRELAÇÃO ENTRE O SEU FILME, AS TERRÍVEIS TENDÊNCIAS DESPSICOLOGIZADAS DA PERSONAGEM PRINCIPAL (INTERPRETADA POR ELE MESMO) E AS DELE, CRISTI PUIU, COMO ARTISTA. NO FUNDO, QUERER MUDAR O MUNDO DE UM MODO OU OUTRO. MAS COMO ENTÃO CONSEGUIMOS PERCEBER DE ONDE VEM ESTA VIOLÊNCIA?

SERÁ NA PERMEABILIDADE PARA COM O ESPECTADOR NA FORMA DO FILME QUE, PARA UTILIZAR O VERNÁCULO DO ESPECTADOR PIPOQUEIRO, É TANTO CHATA COMO LONGA? É UMA POSSIBILIDADE. MAS AÍ ESTARÍAMOS A CAIR NOVAMENTE NO TAL BURACO DA BANALIDADE DO MAL. E NO INÍCIO SUGIRO A “DESBANALIDADE DO BEM” POR UM MOTIVO CENTRAL – SE BEM QUE CRÍPTICO DENTRO DA NARRATIVA DO FILME.

É IMPORTANTE QUE NO FILME VIOREL (CUJO NOME SÓ SABEMOS PASSADO MESMO MUITO TEMPO DENTRO DA CRONOLOGIA DO FILME) PERTENÇA À CLASSE TRABALHADORA NO SEU SENTIDO MAIS TRADICIONAL. MESMO QUE NUNCA CLARA A SUA FUNÇÃO, TALVEZ ESSA OPACIDADE SEJA UM PRINCÍPIO PARA A NOSSA TAL PSEUDO-PSICANÁLISE. A HISTÓRIA RELATIVAMENTE RECENTE DA ROMÉNIA, VISÍVEL AINDA MAIS NOS ÚLTIMOS ANOS NO MODO EM QUE ACOMPANHOU A CRÁPULA ONDA DA EXTREMA-DIREITA, PRENDE-SE NUMA CRISE QUE PERMEOU GRANDE PARTE DOS PAÍSES DO CHAMADO BLOCO COMUNISTA NA EUROPA. UM PAÍS ONDE A CLASSE TRABALHADORA ESTAVA NO CENTRO DO DISCURSO DO ESTADO E QUE, POR MOTIVOS QUE NÃO CABE NESTA FOLHA SEREM ANALISADOS OU NOMEADOS, CAIU NOS ÚLTIMOS DESSE GOVERNO NUMA PARÓDIA DO QUE OUTRORA TINHA SIDO PROMETIDO AO SEU POVO.

O QUE TERÁ ISTO A HAVER COM AO QUE CHAMO DE “DESBANALIDADE DO BEM”? A VERDADE É QUE TAL COMO CEAUȘESCU E AS SUAS PROMESSAS FALHADAS, A DEMOCRACIA LIBERAL FALHOU NO QUE PROMETEU. TROUXE O DESARMAMENTO DA CLASSE TRABALHADORA DO SEU PAPEL CENTRAL NOS PROPÓSITOS – MAIS OU MENOS VERDADEIROS – DE UM ESTADO; ACRESCENDO-LHES MAIS PROMESSAS AINDA POR CUMPRIR, E SEM HORIZONTE DE CUMPRIMENTO À VISTA, COMO AS DA IDEIA DA CLASSE MÉDIA: UM INTERMÉDIO MERITOCRÁTICO ENTRE SER O PONTO DE PARTIDA DA POBREZA E A MIRAGEM DE UMA ESPÉCIE DE NOVO MANIFEST DESTINY DE RIQUEZAS PROVINDAS DA MODERNIDADE E FUTURO ENCABEÇADOS PELA UNIÃO EUROPEIA.

A VIOLÊNCIA EM AURORA E O DISCURSO DO SEU REALIZADOR PARECEM SER HIPÉRBOLES – ESPERO EU, HIPÉRBOLES – DO VAZIO EXISTENCIAL DEIXADO NO CORAÇÃO DE UM PAÍS. E TAMBÉM A INCAPACIDADE DE SE REINVENTAR NO NOVO MUNDO, POR FALTA DE VOZ, E, ACIMA DE TUDO, POR FALTA DE TEMPO E ESPAÇO.

FOLHA DE SALA NR. 108 DO CINECLUBE DE POMBAL, 08/04/2026

Manuel Oliveira