SOBRE A CENSURA DE THE PIED PIPER, DE JACQUES DEMY, PELA DIRECÇÃO GERAL DA INFORMAÇÃO EM 1972

DIFICILMENTE ESCREVERIA UM ARTIGO SOBRE O CINEMA DE JACQUES DEMY COM O EXCLUSIVO PROPÓSITO DE O PUBLICAR NESTE WEBSITE. NÃO SÓ SINTO QUE EM POUCO TENHO A ACRESCENTAR À ANÁLISE OU APRECIAÇÃO DOS SEUS FILMES, COMO NUNCA ME DESPOLETARAM NENHUM INTERESSE EM PARTICULAR QUE GRITASSE “COMENTA, OH CHATO!” QUE OUTROS FIZERAM. NO ENTANTO, PARA O CINECLUBE DE POMBAL, TIVE DE ESCREVER UMA FOLHA DE SALA, COMO É TRADIÇÃO NESTA CASA, PARA UM DOS FILMES DE UM CICLO DEDICADO À OBRA DO REALIZADOR. AINDA POR MAIS DE UM FILME QUE NUNCA VI, E QUE, PARA GRANDE ESPANTO MEU, ACABEI POR ADORAR. TALVEZ SEJA DOS ARES DOS TEMPOS DO NOSSO PAÍS (ESCREVO ISTO DOIS DIAS DEPOIS DA PRIMEIRA VOLTA DAS PRESIDENCIAIS 2026).
FICAM ENTÃO ALGUNS DOS PENSAMENTOS SOBRE THE PIED PIPER, DE JACQUES DEMY, FOCANDO NO ASPECTO ESTRUTURALMENTE POLÍTICO DO FILME DENTRO DA LÓGICA QUE O REALIZADOR TRABALHA O SEU CINEMA, QUE LEVOU O FILME À CENSURA NO NOSSO PAÍS DURANTE O ESTADO NOVO.

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Conclusão do relatório da Direcção Geral da Informação em 1972 sobre “A Flauta Mágica”, de Jacques Demy
“Trata-se a nosso ver de um filme intencionalmente contra a Igreja. Não vemos que o público em geral seja capaz de se situar no contexto da Idade Média. Por outro lado, cremos que o mesmo público se deixará influenciar pela ação do filme que é de facto um libelo contra a igreja. Trata-se de um filme, de facto, bem feito que poderia vir a fazer muito mal. Aprovaríamos se o filme trouxesse algo que ajudasse o público a interpretar e a julgar os factos aludidos. Reprovamos.”[1] – [1] Consultável em qualquer uma das edições de Cinema e Censura em Portugal 1926-1974, de Lauro António.
Relançado em sala o ano passado, com o nome O Tocador de Flauta (1972), este filme está na mira do CCP – Cineclube de Pombal desde que nos cruzámos em pesquisa para um ciclo que organizámos em 2024 sobre a comemoração dos 50 anos do 25 de Abril dedicado ao cinema que foi censurado no nosso país. Provocando o filme uma crítica dura não só nesse universo, mas também no universo mais abrangente do espectador, seja por motivos técnicos ou de alegadas impertinências ou irrelevâncias, preferi tomar como ponto de partida para esta folha de sala o aspecto mais histórico do filme no nosso país.
TRATA-SE NOVAMENTE DE UM ASSUNTO QUE SURGIU EM TODAS AS SESSÕES DO TAL CICLO EM 2024, EM TODAS AS CONVERSAS COM TODOS OS CONVIDADOS SOBRE TODOS OS FILMES AÍ EXIBIDOS: O DE DEIXAR DE ENTENDER, APÓS VISIONAMENTO DO FILME DE DEMY, SE OS CENSORES ERAM DE FACTO MUITO INTELIGENTES, OU MUITO BURROS. NO CASO DESTE FILME, ESTA AMBIGUIDADE É AINDA MAIS FORTE.
POR UM LADO, É FÁCIL PERCEBER O QUE ASSUSTARA A DIRECÇÃO DOS SERVIÇOS DE CENSURA, NA ALTURA JÁ REFORMADÍSSIMA E REBAPTIZADA (A HERESIA…) COMO DIRECÇÃO GERAL DA INFORMAÇÃO, NO QUE TOCA À CRÍTICA DA IGREJA NO FILME. AFINAL É ÓBVIO, NÃO SÓ NO MODO CARICATURESCO COMO NELE É REPRESENTADO O CLERO – E PARECE-ME A MIM NÃO TER SIDO PELA CARICATURA – MAS TAMBÉM, E ESPECIALMENTE, PELA DINÂMICA CRIADA COM A PERSONAGEM DE MELIUS, O JUDEU ALQUIMISTA. SEM ENTRAR EM TERRITÓRIO DE SPOILER, DIGAMOS QUE NA BOA TRADIÇÃO DOS FILMES DE JACQUES DEMY, O FINAL É TUDO MENOS UM FINAL FELIZ. NÃO O É PARA OS RATOS, EVIDENTEMENTE, NÃO FORA O REALIZADOR TRUCIDAR O MITO QUE O INSPIROU. MAS TAMBÉM NÃO É PARA OS RESIDENTES DA PEQUENA VILA DE HAMELIN – INCLUSIVE AS CRIANÇAS, POR MUITO QUE NO MOMENTO DO SEU JUÍZO HAJA UMA ESPÉCIE DE BIZARRA APOTEOSE DE ALEGRIA SALTITANTE. E CERTAMENTE NÃO FOI PARA MELIUS TAMBÉM. ESTE PESSIMISMO, QUE EM TUDO NO FILME NOS SUGERE SER FRUTO MAIS DO QUE PRECONCEITO, É DE PROBLEMAS DE GESTÃO. E É AÍ QUE ME PARECE RESIDIR O VERDADEIRO MEDO DOS CENSORES À ÉPOCA.

CLARO QUE DIZER MAL DA IGREJA E HAVER UNS SÍMBOLOS PAGÃOS (NESTE CASO, UMA ESTRELA DE DAVID ESTAMPADA NA CAPA DE UM VELHO CURANDEIRO) CORROMPIA, MAS ISTO JÁ NÃO ERA 1966, ONDE OS CENSORES PROIBIRAM O CLÁSSICO DRÁCULA, PRÍNCIPE DAS TREVAS (1966), DE TERENCE FISHER, POR “TRATA(R)-SE DE UM FILME QUE PRETENDE CRER NA EXISTÊNCIA DE VAMPIROS, EM QUE ESTES APARECEM LIGADOS À RELIGIÃO.”. AFINAL, ESTAMOS A FALAR DA DIRECÇÃO GERAL DA INFORMAÇÃO E NÃO DA DIRECÇÃO DOS SERVIÇOS DE CENSURA.
A COMPLEXIDADE POLÍTICA, NÃO SÓ DAS CAUSAS E MOTIVAÇÕES NARRATIVAS DO FILME, MAS DO MODO COMO REINTERPRETA O FAMOSO FLAUTISTA, DEVE TER DEIXADO – PORQUE A MIM CERTAMENTE DEIXOU – OS CENSORES COMPLETAMENTE ABANANADOS. EM 1972, PLENAS EXALTAÇÕES DO VIETNAME, PLENAS EXALTAÇÕES PÓS 1968, NUM JÁ MUITO-PÓS-GUERRA… QUE RAIO DE METÁFORAS SÃO (PORQUE TEM DE O SER, CERTO? 🙂 ) AS VÁRIAS DECISÕES DO REALIZADOR POR DETRÁS DESTA ADAPTAÇÃO PARA O CINEMA?
ENTENDAMOS QUE AS DINÂMICAS CRIADAS PELO FILME, MUITO À SEMELHANÇA DE OUTROS FILMES DE DEMY, SÃO MUITO MAIS DO QUE METÁFORAS SIMPLES. SÃO MUITO SOBRE SUBVERSÃO DA EXPECTATIVA NOS ARCOS NARRATIVOS (E NÃO SÓ) EM CINEMA. AQUI, VISÍVEL MAIS AINDA, PELA SUA NATUREZA COMO ADAPTAÇÃO DE CONTO POPULAR. OBVIAMENTE QUE O OLHAR CRÍTICO SOBRE OS PAPÉIS DE GÉNERO, SOBRE A CORRUPÇÃO, E, ENFIM, O FACTO DE ESTARMOS A PERMANENTEMENTE A OLHAR NESTE FILME COM UNS ÓCULOS GRADUADOS TAMBÉM PELO MARXISMO, NOS DESAMPARA AINDA HOJE, QUANTO MAIS EM 1972. ESPECIALMENTE NUM FILME CHEIO DE MÚSICA, RITMO, ESTRELAS, SÍMBOLOS POPULARES E VESTIOTAS ENGRAÇADAS.

RESUMINDO, PARA VOLTAR AO MOTE DA FOLHA DE SALA, PERCEBEMOS QUE MAIS QUE BURROS OU ESPERTOS, OS CENSORES ERAM MOVIDOS PELO MEDO DE NÃO TER TUDO SOB CONTROLO, ATÉ DENTRO DO PRÓPRIO FILME. AFINAL, SÃO SINCEROS QUANDO REFEREM QUE O “APROVARÍAM(OS) SE O FILME TROUXESSE ALGO QUE AJUDASSE O PÚBLICO A INTERPRETAR E A JULGAR OS FACTOS ALUDIDOS.”.
JACQUES DEMY FAZ CINEMA POPULAR, MAS FAZ CINEMA VERDADEIRAMENTE SUBVERSIVO, SEM BENGALAS. E É POR ISSO QUE É UM VERDADEIRO PRIVILÉGIO PODERMOS ESTARMOS TODOS JUNTOS NO CINEMA A VER E REDESCOBRIR MAIS UM DOS SEUS MUITO ESPECIAIS FILMES.
FOLHA DE SALA NR. 100 DO CINECLUBE DE POMBAL, 21/01/2026